Cobertura Simsocial 2013

Conferência de Encerramento com Adriana Amaral

A última atividade do SIMSOCIAL 2013, foi marcada pela conferência da professora Dra. Adriana Amaral – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS. Com o tema “Reflexões sobre determinismo tecnológico, performances interacionais e expressões midiáticas atuais”, a pesquisadora apresentou, aos participantes do evento, algumas questões que tem povoado seus atuais interesses de pesquisa em torno da performance de gosto como uma relação de experiências entre sujeitos, música e tecnologias digitais.

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Em sua fala, Adriana Amaral apresentou alguns exemplos de práticas de performatização do gosto musical em sites de redes sociais, tais como Facebook e Twitter.  Ao comparar a cobertura midiática sobre dois eventos distintos: acampamento de fãs de Justin Bieber no Rio de Janeiro e jovens brasileiros que dormiram na fila para comprar o mais novo iPhone, nos Estados Unidos, Adriana chama atenção para quais valores estão em disputa na estigmatização de apreciadores de alguns produtos midiáticos, e outros não.

Ao longo da conferência, a pesquisadora expôs algumas manifestações dos fãs e antifãs brasileiros de música e cultura pop que circulam nos ambientes digitais. Para ilustrar as disputas entre  grupos, apresentou algumas observações envolvendo a polêmica em torno da apresentação de Miley Cyrus no VMA- Video Music Awards 2013, assim como algumas acusações de falseamento (fake) dirigidas a Britney Spears.

Adriana Amaral chamou atenção para algumas diferenças entre a cultura do haterismo e cultura do ódio presentes em sites de redes sociais. Considerando o haterismo como parte dessa sociabilidade, ora lúdica e ora combatente entre os diferentes tipos de fãs e antifãs nos ambientes digitais. A pesquisadora também destacou algumas peculiaridades no comportamento dos trolls brasileiros, que tem no humor uma das maiores ferramentas para a desestabilização de antigrupos.

Antes de finalizar a conferência, a pesquisadora falou sobre como os “lixos digitais” (digital trash) e hoaxes tem a interessado pelas diferentes formas de apropriação pelo público na construção de conteúdos web. Para ilustrar, cita algumas webcelebridades advindas  dessa cultura do meme, tais como Inês Brasil e Vanessão. Após a fala de Adriana, o público presente no auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA, aproveitou os momentos finais do SIMSOCIAL 2013 para trazer algumas questões envolvendo os assuntos apresentados.

Núcleos Temáticos no segundo dia do SimSocial

Nos Núcleos Temáticos do segundo dia do SimSocial, os trabalhos apresentados circularam por temas como práticas interacionais, educação e aspectos cognitivos e práticas colaborativas de produção de conteúdo. As práticas de monitoramento, redes colaborativas e educação por meios digitais foram temas problematizados nas discussões dos nove trabalhos apresentados, durante os Núcleos Temáticos realizados.

Durante o NT1, a discussão circulou pelos vieses da teoria ator-rede, as práticas de auto-apresentação, diferenciação na observação de pessoas públicas e os reflexos da gestão da vida no contexto da internet e das redes. Na discussão no NT4, foram levantadas questões como: Quais as politicas educacionais voltadas às novas tecnologias e suas contribuições para a educação¿ Como as variáveis regionais são influenciadoras no EAD¿ Por fim, o NT5 alimentou discussões sobre a construção de conteúdo no jornalismo online e as novos formatos de publicações jornalísticas.

A partir das 14h, foram apresentados trabalhos nos últimos Núcleos Temáticos do SimSocial 2013. Os apresentadores trouxeram para o debate os potenciais das tecnologias e suas implicações para compreender as  sociabilidades emergentes. Temas como o consumo na era digital, mediações da música, gerenciamento de impressão, qualidade a informação pública, dentre outrosforam temas problematizados nas discussões dos três Núcleos Temáticos que aconteceram na tarde – “Sociabilidade, Novas Tecnologias e Práticas Interacionais”; “Sociabilidade, Novas Tecnologias, Consumo” e Estratégias de Mercado” e “Sociabilidade, Novas Tecnologias, Política e Ativismo”.

As apresentações levantaram discussões que permitiram ampliar a análise dos temas, abrindo também novas questões, que agregaram contribuições significativas, as preocupações dos pesquisadores e estudantes participantes.

Todos os trabalhos apresentados estão disponíveis na íntegra no http://simsocial2013.gitsufba.net/anais/

Agora a  noite,  11/10 ainda acontecerá a Conferência de Encerramento: “Reflexões sobre determinismo tecnológico, performances interacionais e expressões midiáticas atuais”com a Profa. Dra. Adriana Amaral.

 

Mesa-redonda: Performances, apropriações e mediações sociotécnicas: como experienciar o mundo contemporâneo?

Na última atividade da manhã do segundo dia do SIMSOCIAL 2013, José Carlos Ribeiro abriu a mesa-redonda com o tema “Performances, apropriações e mediações sociotécnicas: como experienciar o mundo contemporâneo?”, com a participação de Jorge Cardoso, doutor em Comunicação (UFMG) e professor da UFRB e UFBA e Messias Bandeira, doutor em comunicação (UFBA), professor da UFBA e pesquisador visitante da New York University.

José Carlos inicia a mesa trazendo definições dos termos “performance” e “apropriações” e a partir daí analisou a relação entre os dois conceitos para compreender suas dimensões.  Propõe pensar de forma mais serena sobre quais são as variáveis que possibilitam novos olhares e quais são as novas formas de experienciar o mundo contemporâneo.

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Para discutir o tema, Messias Bandeira inicia sua fala afirmando que o que nos interessa é a apropriação social da tecnologia.  A emergência das tecnologias foi fundamental na contemporaneidade e atualmente esse fato ganha um novo relevo.

Messias Bandeira coloca que neste evento abordará a questão na perspectiva da cultura política, com o tema “Pautas locais, cidadanias globais: cultura politica em rede” e desafia o público a pensar se é possível uma nova cultura politica para além de uma reforma politica.

O tema é contextualizado pelo palestrante a partir de uma citação de Hannah Arendt  “Na medida em que as realidades atuais trouxeram um presente global sem um passado comum, elas ameaçam tornar irrelevantes todas as tradições e todas as histórias particulares do passado”. Nesse caminho, temos  espaços do saber, da cultura, da sociabilidade e da politica e enfatiza:  “Não é o fato do surgimento da tecnologia, mas como nós redefinimos o uso desses recursos”.

A ideia da cultura aberta e da cultura do compartilhamento estabelece a cultura da reciprocidade e conclui o preâmbulo convidando o público a pensar no modus operandi em nossa compreensão daquilo que estamos fazendo. É possível separar o digital da cultura? E pensar a politica sem as redes?

Bandeira propõe pensar as pautas e cidadanias locais com a sugestão de que talvez nós estejamos assistindo a uma erosão das ideologias tradicionais por uma cidadania global. Não que essas ideologias tenham sido abandonadas, mas sem dúvida há uma nova pauta, ou pelo menos, uma ideia de sobrevivência e acrescenta “a geração que chega é uma geração que não quer saber de politica e o que nós vemos é que nunca se discutiu tanta politica como neste momento”.

Apesar de tantas manifestações, os movimentos estão proporcionando um esvaziamento na politica. Entendendo que não é possível fazer politica sem a âncora da ideologia, talvez o que se tenha hoje é uma visão muito confinada da politica. E sugere que não há uma rivalidade com os partidos políticos, mas que esses partidos depois do movimento deve vir a atuação política e afirma que uma das grandes forças desse processo é o protagonismo da sociedade civil. Seguindo  a discussão, é proposta uma analogia entre as quatro liberdades essenciais que constituem o software livre com a política participativa, conforme quadro abaixo:

Software livre

Política participativa

Liberdade para executar o programa

Participação

Acesso ao código-fonte

Transparência

Liberdade para distribuir cópias

Compartilhamento

Liberdade para aperfeiçoar o programa

Escolha

Messias Bandeira finaliza sugerindo a leitura do livro Redes de Indignação e Esperança, de Manuel Castells.

Dando continuidade à mesa, Jorge Cardoso inicia apresenta o tema de sua fala:  “Mediações sociotécnicas da performance, presença e ausência na apresentação de um show”, coloca a importância de se compreender o conceito de presença , que tem origem no latim e significa “algo está na nossa frente” e a ideia de signo, como “algo que esta representando uma outra coisa”.  E chama a atenção de que a partir do momento que estamos frente a determinado objeto, esse objeto pode provocar efeitos difíceis de serem descritos.

Cardoso coloca que a forma de engajamento com o mundo contemporâneo é muito  dispersivo e propõe um diálogo entre á teoria das materialidades e a teoria das mediações. A ideia de performance já carrega em si a ideia de instabilidade, contudo esta estabilidade é relativa.

Com a apresentação do vídeo de um show do Pink Floyd, o professor discute o fato de que, na teoria, o show seria um evento entre co-presentes, mas cada vez mais observa-se as pessoas participando através de transmissões, a exemplo do Rock in Rio 2013. A ausência do ouvinte modifica a performance dos artistas (deslocamento da ação performática).

Após a discussão do vídeo apresentado  iniciou-se o debate, moderado por José Carlos Ribeiro.

 

 

Conferência com Maria Cristina Ferraz: Corpo e culto à performance na tecnocultura contemporânea.

A última atividade, do primeiro dia do SIMSOCIAL 2013, foi marcada pela palestra da professora Maria Cristina Franco Ferraz, do Programa de Pós-Graduação da UFRJ. Com o tema Corpo e culto à performance na tecnocultura contemporânea, a professora iniciou sua fala mostrando o antagonismo de duas imagens de velhice. A primeira encontrada no filme “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman, e a segunda na imagem de Jane Fonda. Dois retratos opostos, ele visto como um velho que luta contra a morte, enquanto ela demonstra saúde e disposição. Diante destas imagens antagônicas, a professora questiona o atual imperativo ao jovem, saudável e de que maneira as tecnologias digitais estariam influenciando estes comportamentos.

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Maria Cristina Ferraz argumentou que as pessoas tentam dimensionar aquilo que tendem as se tornar, instigadas pelo culto a uma pele lisa, jovem e digital, em fuga às rugas que carregam uma condenação a decrepitude. A professora pontuou seu interesse pela maneira como as tecnologias, historicamente, se tornaram efeito/instrumento para as mudanças ou reconfigurações da velhice e da relação com o tempo e a morte.

A professora apresentou a relação dos temas corpo e tecnologia, abordando conceitos de Foucault e da crítica a técnica de Haidegger. Apontou estudos da área de neurociência sobre a degradação neural e como tais estimulariam a neuroplasticidade.  Trouxe também os conceitos de luta contra a finitude e o culto a performance, relacionando com o discurso de busca pelo desempenho ilimitado do corpo e da mente.

As questões de sua pesquisa levantaram uma rica discussão que circulou em temas como cyborgues, dissociação da mente e do corpo e o luto, perpassando por temas como temporalidade, fragmentação do corpo e finitude melancólica.

 

Núcleos Temáticos no primeiro dia do SimSocial 2013

Na tarde da última quinta-feira, 10/10, foram iniciadas as primeiras apresentação dos trabalhos aprovados no SiMSOCIAL 2013.  Os cinco núcleos temáticos do evento – Práticas interacionais (NT 1), Consumo e estratégias de mercado (NT 2), Política e ativismo (NT 3), Educação e aspectos cognitivos (NT 4), e Práticas colaborativas de produção de conteúdo (NT 5)-  tiveram sessões que renderam uma série de questões e debates.

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Às 14:00 foram iniciadas as apresentações do Núcleo Temático 1 – Sociabilidade, novas tecnologias e práticas interacionais.  Leonardo Ferreira falou sobre a Teoria Ator-Rede e discutiu algumas questões e criticas em torno da cartografia das controvérsias. Em seguida Joana Dourado apresentou sua pesquisa sobre o amor e sexo na cibercultura a partir de entrevistas realizadas com usuários dos aplicativos  Grindr e Scruff e de algumas incursões “fakes”da autora nesses ambientes. Maycon Lopes apresentou ao público do NT1  o site Cam4, e discutiu a pornografia amadora em tempo real, a partir de interações realizadas no site. Carolina Louback  apresentou “a conjugalidade intercultural de brasileiras: uma analise sistêmica de post em blogs” analisando o processo de adaptação cultural vivenciado pelas imigrantes. Por fim, Siméia de Oliveira discutiu o que é ser fake em comunidades virtuais, a partir da análise de uma conversa com um perfil fake “Escritora! Lisa”, autora da Webnovela “A Dívida”.

Os trabalhos na íntegra estão disponíveis em: http://gitsufba.net/anais/simsocial-2013/ E os debates continuam em: gitsufba.net e no @gitsufba.

 

Conferência de Abertura com Alex Primo: “Interações e mediações sociotécnicas”

O professor Alex Primo, doutor em Informática na Educação, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação  da UFRGS, realizou a conferência de abertura do SIMSOCIAL 2013, com a temática “Interações e mediações sociotécnicas”.  Alex Primo iniciou a discussão propondo uma reflexão sobre onde estamos depois de anos de discussão sobre cibercultura. Ele propõe que quando iniciamos as discussõs na área ciber, os discursos eram utópicos e revolucionários, a liberdade de expressão estaria garantida e a cultura participativa colocaria em cheque a cultura de massa.

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Primo coloca algumas idéias propostas por Henry Jenkins no livro “A cultura da convergência”, que discorre sobre a convergência de mídias e trata da interação da indústria com o público. No livro, o debate é direcionado à industria, inclusive com uma linguagem empresarial e não para a linguagem do cidadão. Ainda sobre o livro, a resitência dos fãs à indústria – os fãs “parasitam” produtos que deveriam ser protegidos hoje é aproveitada pela indústria, que  precisa dessas intervenções para expandir seu mercado. A indústria, que já tinha sido dada como morta pelas promessas das tecnologias digitais estão reagindo. Primo então propõe a relexão: Todo o discurso revolucionario dos primeiros tempos não conseguiram atingir seus objetivos? A indústria está trazendo sua revanche? Serão novas formas mais discretas de opressão e alienação (termos tipicos da discussao  acerca dos meios de comunicação)?

Para complementar a argumntação, Alex Primo discute sobre a o jornalismo, que apresentou uma alternativa viável à acusaçao do jornalismo em função dos anunciantes. Os  grandes jornais, a exemplo do New York Times, deram a volta por cima. O jornalismo participativo não morreu, mas a ideia de que as grandes empresas acabariam também não vingou.

O que o palestrante propõe em sua fala são as controvérsias ligadas à discussao sobre cibercultura. Não a verdade, mas o  diferente e complementa  “As utopias tem energia e propõem movimentos”. O choque das utopias com o capital midiatico permeia a fala, sem querer das respostas.

Na década de 70, 80 e 90, a comunicação estava necessariamente ligada ao capital. Havia sempre a necessidade do investimento, a liberdade  de expressão existia somente para os detentores dos veículos de comunicação. As alternativa da época – fanzine, radios em poste etc. só tinham alcançavam quem estava próximo geograficamente. E com o desenvolvimento tecnológico, essa questão foi realmente superada e exemplifica: “Eu uso o mesmo youtube de um grande jornal”. Se antes dependíamos de alguns lideres e as manifestações eram vulneráveis, podiam ser caladas, hoje as manifestações nao tem líderes com nomes (defesa do anonimato).

E coloca questões na comunicação atual como colaboração e afeto. O capitalismo nao  morreu, mas há um esforço de outro tipo de capitalismo, modificado dele mesmo, uma espécie de capitalismo cognitivo, não mais com a  posse da fábrica, mas  da ideia. Encontramos hoje uma série de jogos e tensões e muita controvérsia. O próprio conceito de multidao coloca a  comunicação e afeto, diferente da massa, que era vista como homogenea e sem voz. O professor traz então o conceito de customização de massa – sua via é direcionada ao que o objeto pode permitir.

E finaliza propondo algumas questões. O que é massa? Ainda existe comunicação de massa? A propria teoria da comunicação é dificil de ser discutida porque os conceitos estão em jogo. E complementa argumentando sobre as ferramentas de aferição de interações, que promovem um deslumbre sobre a possibilidade de descobrir os padroes do comportamento humano. “Temos que tomar cuidados, da mesma forma que mapa nao é territorio, grafo não é a vida”.